terça-feira, 27 de agosto de 2013

A arte de ser feliz


A arte de ser feliz
Cecília Meireles

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Professores Apaixonados


Professores Apaixonados
Gabriel Perissé
 
Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem tarde, movidos pela ideia fixa de que podem mover o mundo. Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.
 As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato. Apaixonar-se sai caro!
Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria. Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro. Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma forma de oração. Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera oração subordinada, e mais nada.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.

terça-feira, 16 de julho de 2013

A flor

“Quando era pequena, estudava numa sala... parada. Espera, não quero dizer, com isso, que as salas de aula deveriam sair por aí passeando. Mas bem que elas poderiam dar uma sacudidinha de vez em quando e mudar o visual para chamar a nossa atenção, certo? Mas não. Era proibido mexer naquela sala. Parecia que qualquer modificação iria prejudicar o nosso aprendizado. As paredes eram brancas e deviam estar sempre branquinhas, falavam. As carteiras eram fixas, grudadas no chão. Tudo era imóvel. Olha, nem me lembro da sala, ninguém nem olhava para os lados. Afinal, para quê? Era sempre igual...
Um dia, um dos meninos da classe trouxe uma flor de presente para a professora. Uma rosa cor-de-rosa. Não lembro o motivo, se era Dia do Professor, aniversário dela ou se ele só quis agradar. Só recordo que ele apareceu na sala de aula, eufórico, com a flor na mão.
— Professora! Trouxe um presente!
A professora era muito falante, extrovertida e espalhafatosa. Fez a maior encenação, com cara de surpresa. ‘Mas que beleza! Coisa liiinda!’. Depois pediu uns minutinhos e saiu da sala com a flor na mão. Quando voltou, estava sem a flor.
— Ué? — o menino levantou a mão, intrigado — Professora, cadê a flor que eu dei pra senhora?
— Ah! — ela disse, sorrindo — Coloquei num vaso, lá na sala dos professores, para não ‘atrapalhar’ a aula — e encerrou o assunto, categórica — Obrigada, viu?
[...]
Uma simples rosa cor-de-rosa... atrapalha a aula? De onde ela tirou isso? Gente, a flor era um presente, um ato de carinho do aluno. E, segundo ela mesma, ‘linda’. Será que, por isso, desorganiza o espaço?
Pergunto: pode uma coisa dessas?”
Fonte: CARVALHO, Lúcia. Livro do Diretor: Espaços & Pessoas. São Paulo: Cedac/MEC, 2002.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Pense nisso!


"Uma parábola conta que um homem olhava uma construção. Curioso, perguntou a um dos operários o que ele estava fazendo. Triste, ele respondeu: "Erguendo uma parede". Em seguida, questionou outro trabalhador, que disse: "Estou fazendo um prédio". Percebendo que havia um homem alegre e envolvido com os afazeres, não resistiu e repetiu a pergunta. Ouviu: "Estou construindo uma escola e, com isso, ajudando a acabar com o analfabetismo e fazer com que as pessoas sejam mais felizes".

Alugo sonhos


Alugo sonhos

(Maurício Soares)

Alugo os meus sonhos.
Eles já me levaram ao paraíso
E me derrubaram ao chão.
Me fizeram viajar e a vida largar.

Alguns deles dão uma linda vista
para o mar,
Outros para as montanhas
mais altas.

Podem levar ao topo do mundo
ouvindo sinos a tocar
no caminho, vendo
as mais belas orquídeas.

Alugo sonhos agora sem utilidade.
Alugo para alguém que queira viver.
Alguém que possa usá-los
para ser eterno...
Eu perdi a chance
que eles me deram.

Alugo sonhos
com vaga na garagem,
Play ground com roda gigante
e Bundy Jump.
Ampla sala de música que toca
ao simples fechar de olhos
Todos os ambientes estão sempre
cuidadosamente perfumados.

Alugo sonhos
com janelas amplas
que a tudo ventilam.
Junto estarão indo pedaços
de vida e mudas de fé,
Que se bem plantados e cuidados,
germinarão
E darão flores com perfume
para o seu destino.

Também posso
vender estes sonhos
Que me fizeram nascer,
viver e voar.
Fizeram-me ver a luz
e me esconder às sombras,
E agora,
não sei o que fazer com eles.

Como paga pela troca,
Só quero ver alguém feliz com eles
Já que eu não pude
Quem sabe alguém melhor saiba...
E será feliz......


 
 
 
 
 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

PRÁTICAS EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL












"TALVEZ SONHAR ACORDADA AJUDE A MATERIALIZAR UTOPIAS, A DESPERTAR DO TORPOR DA ALIENAÇÃO PARA O SONHO DE UM MUNDO MELHOR.
PARA O ATIVISMO COMPROMETIDO E RESPONSÁVEL, POR MEIO DE AÇÕES INDIVIDUAIS E COLETIVAS VOLTADAS À CONSTRUÇÃO DE SOCIEDADES SUSTENTAVEIS."

domingo, 28 de abril de 2013

Frases de Washington Novaes










"A educação ambiental é decisiva. Ela mostra que há outros modos de viver. E que eles ajudam a preservar a biodiversidade, a água, todos os recursos naturais e seres vivos. "

"Se a educação ambiental avançar como é preciso, a sociedade aprenderá a discutir esses temas. E obrigará os políticos e os governantes a transformá-los em questões prioritárias, como é urgente e decisivo fazer. "

sábado, 13 de abril de 2013

Com o propósito de acertar suas diferenças, as ferramentas de uma

marcenaria fizeram uma assembléia. Foi, basicamente, uma reunião

para ouvir as observações de seus companheiros de trabalho.

O martelo estava exercendo a presidência, mas os companheiros

exigiram que ele renunciasse. Os argumentos foram: fazia demasiado

barulho e, além do mais, passava todo tempo golpeando os objetos.

O martelo aceitou sua culpa, mas pediu que não fosse nomeado o

parafuso, alegando que ele fazia muitas voltas para atingir seus

objetivos.

Diante da colocação do martelo, o parafuso concordou, mas por sua

vez pediu que não indicasse a lixa para a presidência, pois ela era

muito áspera no tratamento com os demais, gerando muitos atritos.

A lixa acatou, com a condição de que não se nomeasse o metro,

que sempre media os outros segundo a sua medida, como se fosse

o único perfeito.

Neste momento, entrou o marceneiro, juntou todas as ferramentas

e iniciou o seu trabalho.

Utilizou o martelo, a lixa o metro, o parafuso... E a rústica madeira

se converteu em belos móveis.

Quando o marceneiro foi embora, as ferramentas voltaram à

discussão. Mas o serrote adiantou-se e disse:

— Prezados companheiros, ficou demonstrado que temos defeitos,

mas o marceneiro trabalhou com nossas qualidades, ressaltando

nossos pontos valiosos... Portanto, em vez de pensarmos em nossas

fraquezas, devemos nos concentrar em nossos pontos fortes.

Então a assembléia entendeu que:

• o martelo era forte;

• o parafuso unia e dava força;

• a lixa era especial para limpar e afinar asperezas;

• o metro era preciso e exato.

Sentiram-se como uma equipe, capaz de produzir com qualidade

todos os móveis, e perceberam que respeito, aceitação e

acolhimento das diferenças são elementos indispensáveis para o

trabalho em equipe (...).

Fonte: (Extraído do texto de RAMOS, Paulo. Educação Inclusiva: histórias que

(des)encantam a educação. Blumenau-SC: Odorizzi. 2008, 57-580)